Nilson foi meu namorado de adolescência, daqueles que geralmente perdemos o contato e fica só na memória. Mas com ele foi diferente. Hoje ele mora na Espanha e nos falamos de tempos em tempos via e-mail ou Messenger.
Essa semana, falávamos de coisas corriqueiras até o momento em que ele escreveu, de um jeito “portunholzado” de quem não fala português há tempos e que eu não vou conseguir reproduzir: “Saudade daqueles tempos, em que assistíamos desenho animado e comíamos pipoca no sofá da sua casa. A vida parecia tão simples”.
Ok. Se eu fizer uma força para esquecer todas as minhas espinhas, meu sentimento de inferioridade e todas as minhas encucações sexuais de adolescente, a vida era mesmo simples... mas eu não me lembro de assistir desenho animado, nem de comer pipoca com ele! Lembro de assistir filmes, lembro até de assistirmos a abertura das Olimpíadas de 1996. Lembro que naquela época eu ainda tinha tempo para fazer sorvete caseiro e que a gente comia baldes e baldes. Mas não tinha pipoca!
Fiquei pensando em como nós arquivamos nossas memórias... Quem foi que esqueceu, quem foi que inventou uma história paralela? É incrível como cada pessoa tem uma visão diferente sobre cada momento, como cada um de nós registramos fatos em nossa memória de um modo particular.
É como no dia em que, depois de uns dois anos de relacionamento, perguntei para um namorado o que ele achou do dia que a gente se conheceu. Ele falou:
― Eu estava empolgado porque te achei muito interessante.
Dois minutos de silêncio incômodo.
― E você, amor? Qual foi sua primeira impressão de mim?
― Bem... eu... achei você meio estabanado, meio sem saber o que fazer.. mas pensei que depois melhoraria, daí dei uma chance.
Faltou falar pra ele que depois não melhorou nada, e que eu não fazia a mínima idéia do que estava fazendo com ele por tanto tempo...
Quando a gente se lembra para sempre, pouco importa se é um detalhe aparentemente insignificante ou um grande acontecimento ― não há nem mesmo como chegar a um consenso sobre o que é um detalhe ou um grande acontecimento... Como fotografias tiradas num ângulo tão particular que, para cada um, o objeto retratado toma formas e cores diferentes. Mas, se você lembra de um fato de uma maneira e seu (ex) parceiro de outro, qual é a versão que vale? Pior ainda: se cada um tem uma versão diferente para uma história, ela realmente aconteceu? Prefiro me confortar pensando que sim, ou eu poderia jogar todos os meus álbuns de fotografia no lixo.
Eu sempre odiei desenhos animados, sei que não assistia. Além disso, eu usava aparelho fixo e não podia comer pipoca porque elas entortavam o aparelho, portanto, a tese do filme com sorvete é mais provável... mas fico feliz de saber que, enquanto o meu amor da adolescência estiver vivo, eu também estarei – e terei comido pipoca e assistido desenhos animados – como nunca fiz.
Se dizem que um homem só morre quando suas construções acabam, a presença dele na memória de outra pessoa é por si só uma construção e tanto.
sexta-feira, 29 de junho de 2007
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3 comentários:
Putzgrilla!!! Como vc escreve bem!!!!!
Juízo...
divírta-se
calma e classe sempre
E isso me fez pensar nas memórias que se apagam para sempre e mesmo com muito esforço, mesmo com tanta gente para nos descrever o passado nada faz com que ele reapareça. Um bloqueio tão grande que nunca mais seremos capaz de resgatar...
o pior é os momentos que por opção gostariamos de apagar se torna nosso pesadelo diário.
Ci,
muito legal os comentários sobre os italianos...
Parecem ser muito hospitaleiros. Seus comentários são ótimos. Divirta-se.
E quanto ao namorado achei muito legal vc não dizer a ele que vc não comeu pipoca.
Bjs. nilsa
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