
Margot Martinez era minha bisavó. O conto que escrevi abaixo é, digamos, um conto baseado em fatos reais, já que faz parte daquelas historinhas que toda família conta de gente que já morreu... ou que toda avó conta aos netos, 50 anos depois e romanceando tudo.
Se você gostar, a culpa é minha. Se não gostar, põe a culpa em Hemingway. Toda vez que leio Hemingway me dá vontade de virar escritora... liga não, rapidinho passa.
Em tempo: na foto, a modelo Margot Hemingway, neta de Hemingway-escritor... essas coincidências da vida.
Margot
Ela se levantou e passeou pelo quarto procurando o velho relógio em cima da cômoda. Conferiu as horas, colocou água para ferver e pó no coador de pano. Posicionou o bule de metal entre as longas pernas de arame que sustentavam o coador. Viu que o rapazinho da padaria já havia deixado o pão do lado de fora da porta. Pegou o saco com os pães, fechou a porta e o colocou sobre a mesa da cozinha. Sentou-se.
“Tenho que acordar” pensou. Mas a intenção não era essa. O que queria mesmo era adormentar-se outra vez. Dormir até que aquele sentimento passasse. Dormir até que tudo fosse sacramentado. Ou até que alguma coisa mudasse. Ou talvez o pouco de esperança que ainda levava consigo teria sido o que a fizera levantar-se aquela manhã. Um galo cantou ao longe, sobressaindo-se entre o som dos pássaros e dos sons da gente que acordava e iniciava a própria rotina ali na vizinhança.
Notou que a água fervia, pegou a panela e despejou a água lenta e mecanicamente no coador, enquanto a mente escapava e a fazia sonhar que eles estavam casados, com filhos. Uma linda casa. Bem simples – sua imaginação não alcançava mais ambição –, mas bem longe dali. Uma casa com jardim. Queria sobretudo um jardim. Cercas construídas por ele e flores plantadas por ela. Queria também dois filhos, um casal. O menino vestiria sempre um belo terninho azul que uma vez ela tinha visto em uma vitrine na rua da Carioca.
Os passos lentos da mãe fizeram-na acordar. “Buen día”. “Bom dia, mamãe. Já fiz o café.” “Manuelzito entregó los panes?” “Sim”. O olhar perdido da filha deixava a velha espanhola irritada. “Qué pasa?” “Nada... Acho que vou fazer um passeio...” “Se vas allá otra vez...”. A filha já estava no quarto quando a mãe completou a frase. Iria lá outra vez sim, estava decidido. Nunca tinha sido de ouvir conselhos, não seria justamente esse que escutaria. Meteu-se dentro do vestido vermelho, aquele com o melhor tecido que tinha, ajeitou a anágua, enfiou as meias finas e os sapatos, dando uma leve torcida para esconder o remendo na ponta da meia do pé esquerdo. Soltou os grampos dos cachos que tinha feito na noite anterior. Um pouco de água de colônia, pó de arroz, o batom cor de cereja da irmã. E assim, antes que seus irmãos ou seu pai acordassem, e, quiçá, fizessem-na mudar de idéia a força, a menina descia a rua, atravessava a Ponte de Tábuas, rumava ao Jockey.
Entrou pelo portão lateral, que dava diretamente na estrebaria. A construção era muito nova, mas aquela poderia ser considerada a parte feia do Jockey – ao menos nada tinha a ver com o glamour da tribuna e dos salões de honra, nem mesmo com a arquibancada ou o guichê de apostas. Era lugar de jóqueis, cavalariços, mulheres muito poucas, e alguns abastados senhores em seus ternos, chapéus e relógios de bolso.
Enquanto descia o corredor formado pelas baias, era inevitável o esforço que fazia para não mostrar que sabia que todos a olhavam. Era uma garota pequena, seja em estatura, seja em peso, de um caminhar leve que parecia não tocar o chão. Os cabelos muito negros formavam caracóis que pareciam meticulosamente feitos um a um. Seus olhos eram castanhos, levemente esverdeados. Possuía um olhar que parecia dizer “eu sei” com ar tal que muitos homens acreditavam que ela realmente conhecia algum segredo seu. Em menos de um minuto qualquer um podia entender os motivos pelos quais ele se interessou nela.
Encontrou-o de costas, dentro da baia, acariciando seu cavalo. Por um instante pensou que ele conversava com o animal. Ela parou ali, em pé, a alguns metros de distância dos dois. E só então se deu conta de que não tinha nada para falar, nem para fazer, ali, com ele. Nesse momento, ele se virou e a viu. Poder-se-ia dizer que ele sentiu a sua presença, ou ela pensou assim só porque lhe parecia romântico. O fato foi que ele sorriu, e ela se aproximou.
“Estava pensando em você.” “Sabia que te encontraria aqui a essa hora.” “E eu estava pensando que não te veria mais... e a idéia não me agradava em nada.” Ele abaixou a cabeça, e apoiou os cotovelos na meia-porta de entrada da baia. Era um homem franzino como todos os jóqueis, não muito belo, mas apaixonado. “Alguma coisa aqui dentro” ela indicava o próprio peito “me dizia que ainda temos dois dias. E aí eu vim.” Ele levantou os olhos, fitou-a e abriu a porta. Não precisava mais se proteger. Ela deu um passo avante, ele tocou seus dedos suavemente até que toda a sua mão fosse coberta pela sua. Seus olhos se encontraram, ele olhou ao redor em busca de qualquer um que pudesse denunciá-los. Ninguém. Ele colocou a outra mão em sua cintura, apertou-a contra o seu corpo e, em uma meia volta prensou-a contra o portal da baia, beijou-a ternamente. Em um suspiro, ela perguntou “O que será de nós?”. Ele franziu a testa e fechou os olhos e, ao abri-los, olhando o nada, disse “Vamos embora”. Ela o fitava sem entender. “Eu deixo tudo. Levo o dinheiro que tenho e nós começamos outra vida. Basta que ninguém nos encontre.” “Por quê? Por quê?! Eu nunca vou entender!” E realmente não entendia. Não entendia porque, depois de meses, depois que já haviam passado de olhares a gracejos, dos passeios aos beijos e afãs, ele nunca a presentara como noiva, ou ao menos namorada, a ninguém. E, sobretudo, não entendia porque, depois de todos os momentos prazerosos juntos, ela viria a saber, pelos jornais, que ele se casaria daí a pouco com uma outra garota cujo pai possuía investimentos em cavalos. “Nem eu entendo mais. Não me perguntes. Só sei que, se eu ficar, devo casar-me.”
Ela pensava em tudo o que ele representava: dinheiro, fama, amor. O turfe rendia muito mais aos criadores de cavalos, mas isso não queria dizer que os jóqueis não tivessem dinheiro, muito menos um jóquei de tantas vitórias como ele. Fugir – mesmo que ele não tenha usado palavra tão infantil, ela sabia que o que ele queria era mesmo isso –, fugir. Fugir significaria nunca aparecer nos jornais ao lado dele. Fugir significaria deixar a família, não que ela amasse a família, mas deixar a família sem explicações daria a todos razão para odiá-la, e ela gostava da posição idônea que ocupava agora. E por tantas vezes havia pensado em casar-se e ser a filha e irmã rica, aquela que ocasionalmente vai visitá-los e então distribui presentes, sorri e trata a todos com compaixão, aquela que mora na casa feita de tijolos, numa rua sem tábuas colocadas para que não se molhem os pés em dias de chuva. A casa com jardim e uma cerca branca, como a das casas no cinema. Ela pensava nos chapéus e no terninho azul que viu na vitrine na rua da Carioca. Precisava dizer alguma coisa. “E para onde iríamos?” “Não sei, pro campo talvez? Eu poderia iniciar uma plantação.”
Plantação. Ter uma pequena fazenda, levantar cedo todos os dias, fazer o café, o marido entrando em casa com os pés cheios de lama como na casa de sua família. Pensou na vieja, no pai, nos cinco irmãos vivendo na casa pequena em meio a toda aquela lama. Viu o menino de terninho azul que sempre imaginara brincando no barro. “Eu te amo.” Até então ela sempre tinha sido orgulhosa demais para dizê-lo e agora, só agora, aquelas palavras saíram assim, eu te amo, bem no momento onde colocava em dúvida o amor que sentia por ele. “Eu também.” O silêncio parecia tomar conta de tudo, fazendo segundos parecem horas. “Então, vamos embora daqui.” “Não!” ela finalmente encontrara forças. “Se não podes enfrentar tudo isso e continuar aqui, então não me amas.” Colocar em questão a coragem daquele homem poderia até ser um jogo baixo demais, mas ela não pensara. “Isso eu não posso fazer, bem sabes...” “Não, eu não sei. Nunca me explicastes. E não existe explicação que me poderia convencer de que isto não é tão somente...” ele a interrompeu: “O quê? Covardia minha? Pensas que sou um maricas, é isso?” “Por Deus, já te vi competir, não poderia pensar que és um maricas. Por isso creio que não me amas.” “Eu te amo. E é por isso que quero ir embora. Por ti, tenho coragem de deixar tudo o que construí.”
Ela o fitava. Convenceu-se de que era um fraco, um maricas. Um maricón que não a amava. Olhou-o com firmeza e, por fim, disse “Case-se”. Deu-lhe as costas e foi-se embora. Desta vez, como em muito poucas outras, seus passos tocavam o chão.


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