Pra finalizar o semestre do doutorado, resolvi fazer um inventário dos meus defeitos de caráter, que, pra variar, são os mesmos de sempre.
Aí pensei que o melhor pra mim seria antecipar as resoluções de final de ano em 6 meses. Assim posso comer meu frango recheado com abacaxi e menta da ceia de natal sem o peso na consciência de não ter colocado "parar de fumar" na lista...
A preguiça me pegou de jeito. Tenho que ser mais ativa. Troquei a noite pelo dia mais uma vez. E não encontro nenhum motivo pra não fazer isso... só esse arquétipo de mãe que parece morar no meu cérebro. Tô cheia de coisas pequenininhas e imbecis para fazer e não tenho vontade de fazer porque são pequenininhas e imbecis. E depois reclamo que não tenho nada pra fazer. Daí decidi que se eu publicar aqui a minha prostração atual e a minha resolução de "mudar de vida", de repente eu tome vergonha na cara (ainda que se somente pela provável exposição ao ridículo se eu não o fizer) e comece a agir.
Resolução número 1: fazer uma lista das coisas pequenininhas e imbecis e fazer no mínimo 3 delas por dias. A decisão de 3 por dia é totalmente arbitrária, baseada nas tríades peircianas das aulas de semiótica. Se Peirce dividia e classificava tudo em 3, eu faço tudo de 3 em 3 e pronto.
A minha capacidade de ocupar meu tempo com coisas inúteis tem aumentado ao extremo. Depois da terceira frase deste texto, por exemplo, parei para bater papo com o Khaled. Descobri que ele vai para a Croácia daqui a uma semana e gastei as duas últimas horas estudando a possibilidade de ir encontrá-lo em Zagreb. Com o detalhe de que nem ele sabe pra qual cidade ele vai, ou seja, estou me precipitando.
Li a história política da Croácia, da Bósnia-Herzegovina, da Iugoslávia e daqui a pouco ia passar para a do leste europeu como um todo. Lembrei que o uniforme da Croácia na última copa fazia com que eles parecessem uma toalha de piquenique. Lembrei da garota (iugoslava, não croata) que estudava na minha escola. Gastei uns 15 minutos pra lembrar o nome dela: Svetlana. Nome que não me servirá pra nada e nunca me serviu. Nunca falei com ela na escola e, passados 8 anos desde a minha formatura, acho que posso afirmar que nunca falarei com ela de novo.
Depois passei para a fase prática: analisei possíveis rotas de trem, avião e ônibus, partindo de Milão e de Veneza, já que Veneza é grande e é mais a leste. Inútil. Pra quê incucar? Pra quê os planos? Se eu for pra Croácia, como sempre, vou decidir 24 horas antes, entrar no meio de transporte mais barato que estiver disponível naquele dia e, o pior, tudo vai dar sempre certo, como sempre deu. Isso me faz saltar da resolução número 2 para a resolução número 3...
Essa minha necessidade de provar pra mim mesmo que eu tenho o controle da minha vida, que tudo deve ser planificado, testado e aprovado antes de ser feito é inútil. Só me faz perder tempo e te dor de cabeça. Sofro por antecipação, perco noites de sono pensando em encontrar uma saída para todos os possíveis erros do caminho.
Não me sento para fazer um trabalho sem antes perder horas pensando nele, com medo do bloqueio gerado pelo computador. Praticamente faço todo o trabalho duas vezes: uma na minha cabeça, e outra no papel. Mais perda de tempo!
Resolução número 2: usar o tempo despendido com coisas inúteis para fazer as coisas pequenininhas e imbecis da resolução número 1.
Resolução número 3: eu não controlo o mundo e suas adversidades. Eu só vivo nele. A relação tem que ser de troca, não de controle. Eu dou, ele me dá. Simples assim.
Continuo com a minha eterna mania de odiar falar no telefone. Horas rodando em volta dele. "Vou ligar... e vou dizer o quê?", "E se eu não tiver nada pra falar e ficar aquele vazio horrível de quem não tem assunto?", "e se para encher o espaço vazio eu disser alguma asneira?" e, para finalizar agora que moro na Italia: "e quando eu não entender o que o outro está falando?". Continuo escrevendo e-mail, mandando mensagens de texto, pegando ônibus para falar com as pessoas e, com tudo isso, gastando mais tempo do que uma simples chamada telefônica me tomaria. Resolvi procurar ajuda online, descobrir meios de evitar a minha fone-fobia (o termo eu adaptei da versão em inglês da wikipedia). Encontrei em vários sites uma lista de motivos que podem levar uma pessoa a ter fone-fobia. Fui lendo um por um com a intenção de responder "sim" e "não" àqueles que se aplicassem a mim. Todas as respostas foram "sim". Eu não gosto de falar no telefone porque eu tenho:
- medo de ser mal recebida;
- medo de não entender o que falam pra mim;
- medo de que a pessoa não vai entender o que eu falo (esse é quase uma certeza);
- medo de esquecer o que eu tenho pra falar;
- medo de esquecer tudo o que foi falado depois que eu desligo o telefone;
- medo de que me rotulem somente pela minha voz;
- e medo de ter uma idéia errada do que a outra pessoa é só pela voz dela.
Vou adicionar aqui algumas outras coisas que não estavam nas listas dos sites:
- tenho certeza que a outra pessoa tá fazendo algo mais importante do que falar comigo, esteja ela onde estiver e não importa a hora do dia;
- toda vez que o telefone toca ou tenho que escutar os recados da secretária eletrônica tenho certeza absoluta que vai chegar alguma má notícia, ou alguém me pedindo pra fazer alguma coisa que não quero, não posso ou não sei fazer;
- não ver o rosto da pessoa que fala comigo, com todas as suas expressões e sutilezas, me coloca sem saber como reagir àquilo que me falam.
O resultado é que o telefone, já que não posso evitá-lo totalmente, é uma imensurável fonte de estresse, 24 horas por dia ao meu lado.
Deitei na cama, fechei os olhos e tentei ir para onde a minha fone-fobia começou. Lembrei do telefone verde que tinha lá em casa quando eu era pequena. Minha mãe não é do tipo que compra um telefone verde. Deve ter sido presente ou devia estar em promoção. Depois lembrei que eu costumava montar e desmontar um telefone velho da siemens que tinha lá em casa. Era ainda daqueles de discar. E um dia eu pintei ele de azul com estrelas amarelas, depois, a muito custo, consegui fazer com que ele funcionasse e coloquei no meu quarto.
Depois lembrei que eu fofocava por horas com as minhas amigas e com alguns pretendentes a namorado uns 12 anos atrás... mas já odiava falar com desconhecidos. Não gostava de ligar pra farmácia, pizzaria, china in box. E não ligava. Pegava o dinheiro, me vestia e ia pessoalmente. Sempre pensava que não iam entender o pedido e me entregar a coisa errada.
Mas o problema começou a piorar quando eu comecei a trabalhar... e nos últimos anos se estendeu aos amigos e família... resultado é que todo mundo me cobra uma ligação que nunca chega. E não é desamor ou desinteresse, juro! Uff... chega de telefone por hoje. Vou reler as dicas de como curar fone-fobia, prometo. E vou tomar medidas práticas, seja la o que isso queira dizer. Essa é a resolução número 4.
E agora chega. Vou fazer a lista das coisas pequenininhas e imbecis.
sábado, 5 de julho de 2008
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Um comentário:
Enquanto lia seu texto (maravilha, como sempre) lembrei de quando inesperadamente você me ligou.. acho que com o Skype... queria bater papo, conversa fora, pensou em mim, sei lá. Foi como aqueles presents surpresas que recebemos. Adorei mesmo. Não sei quanto tempo faz, o q falamos e em que circunstâncias a ligação foi feita. Mas ao desligar só conseguia sorrir.
às vezes ao nos afastarmos é que notamos a beleza do momento.
Saudades.
e muitos beijos.
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